Livro Eu não moro mais em mim da autora Gabrielle Soares Barbosa

PREFÁCIO – Eu não moro mais em mim

Por toda vida convivi com meninas e meninos insatisfeitos com seus reflexos no espelho. Eu mesma nunca me senti totalmente à vontade com a imagem que via. Na adolescência, passei e dividi conflitos internos sobre meu corpo e a vontade de mudá-lo. Vi uma das minhas melhores amigas travar uma batalha contra a anorexia. Com estudos percebi que os transtornos alimentares são mais comuns do que ousamos imaginar.

Lembro-me de achar que eu não me encaixava nos padrões de beleza por não ser alta ou magra o suficiente. Lembro-me de amigas fazendo dietas malucas. Mas isso tudo parecia normal, o estranho mesmo sempre foi achar alguém que gostasse do seu corpo e que o achasse totalmente adequado, sem o sonho de mudar uma coisinha aqui e outra ali, emagrecer alguns quilinhos…

Lembro-me de ler uma notícia que contava o caso de Daiana Dornelles, uma jovem de 21 anos que morreu por complicações da anorexia e que era incentivada a manter seu peso muito baixo nas redes sociais. Sobretudo, lembro-me de que as notícias que chegavam até mim sobre casos de transtorno alimentar eram predominantemente em modelos, principalmente em garotas.

Me parecia tão raros que por isso achava ter tão pouca atenção midiática. Mas a verdade é que a magreza vende. O que vemos nas revistas e na televisão se distancia rapidamente de representar mulheres e homens da vida real. Estão longe das mulheres que comem fora da dieta porque precisam trabalhar, estudar, viver… Os homens da capa de revista são aqueles que não falham nenhum dia na academia. Fazer exercícios físicos não é o problema, mas fazer de um corpo sarado o único aceitável é. Ditar regra para classificar o que é bonito ou não, é o problema.

O que eu pensava até começar esse livro é que os transtornos alimentares eram causados apenas pela busca obsessiva pela magreza. Descobri que isso é uma mentira. Os transtornos alimentares vêm de sentimentos guardados, sufocantes, que se expelem em forma de ódio ao próprio corpo. São fruto de traumas tão fortes e de medos tão grandes que geram a necessidade de sumir, estar cada vez menor para quem sabe, desaparecer.

Vivi dias intensos, conhecendo pessoas maravilhosas, profissionais que acreditam no que fazem, tendo diálogos que mudaram muito mais a minha vida do que eu poderia imaginar. A cada relato, a cada segredo confessado me sentia ainda mais obrigada a falar sobre os transtornos alimentares. Sentia-me cada vez mais obrigada a mostrar que doenças psíquicas levam à morte e que nós precisamos parar de cooperar para que o sentimento da não aceitação brote no coração do outro.

Se você se identificar com esse livro e achar que tem hábitos parecidos com os relatos citados aqui, busque ajuda! Você não precisa viver nesse emaranhado de sentimentos que te torna tão menos você. Não deixe que sua doença te de-fina. Não deixe que ela te diga quem você é. É hora de começarmos a falar sobre isso, é hora de nos responsabilizarmos pela mania chata e destrutiva que temos de comentar sobre o peso do outro. Nosso corpo não nos define. Você precisa voltar a morar no seu corpo e aceitar a sua beleza real, com cicatrizes, imperfeições e ter paz com o espelho. Lembre-se: os padrões não te definem!